Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012

O ato de recordar.


Quantos sabores pode ter o recordar de um momento? Eu arriscaria avançar uma resposta que talvez toque o cliché, mas que mais se aproxima do certeiro sobre este assunto: muitos, imensos. Inúmeros, diria mesmo. Não há um só. Perguntar-me-ão, então, qual o sabor próprio da recordação de um acontecimento. E eu dir-vos-ei: não há um sabor estandardizado, padrão, que seja comum. E porquê? Porque tudo depende do que é evocado no ato de recordar. Eu creio que esta ação pode ter dois pólos opostos, duas caraterísticas díspares. Pode ser fantástica ou medonha. Os factos e acontecimentos que estruturam a memória recordada determinam a forma como se encara o ato de recordar. Recordar um acontecimento cuja marca gravada é magnífica, torna-se numa ação muito boa, maravilhosa. Vou mais longe, traz vida à vida! Recordar acontecimentos menos bons pode ser, no mínimo, assustador; pode chegar ao limiar do aterrorizante. Não traz vida à vida; pode ter o efeito inverso.
Tendo em conta tudo isto, quero dizer-vos, amigos meus: recordai somente o que vos configurou oportunidades de amadurecimento. Essas memórias que nos trouxeram vida e ficaram gravadas em nós transformaram-se, um dia, em algo de que gerou sentimentos positivos dentro de nós. Podemos pensar que essas memórias são boas recordações. Pois bem, eu digo-vos que são muito mais do que isso. As boas recordações são muito mais do que meras recordações agradáveis; são vida que molda e transforma o ser humano. Não subestimeis o poder catalisador e prazenteiro que tem o ato de recordar belos e inesquecíveis momentos.



Outro pensamento, talvez mesmo um devaneio, escrito a caminho de casa, no comboio. Muito obrigada a todos pelos elogios e pelo feedback tão positivo dado ao texto anterior. A minha escrita ganha forma e contornos verdadeiramente significativos quando a partilho.

Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012

Guarda o melhor dentro de ti.


Não corras com tanta pressa, não sobreponhas acontecimentos na tua vida! Como consegues, assim, viver a beleza e a marca da autenticidade em cada momento que ocorre nos teus dias? Não queiras viver a tua vida num só dia! Poderás saborear verdadeiramente cada instante que surge nos teus dias, matutando insistentemente no próximo instante vindouro? O encanto e a magia dos acontecimentos reside na maneira como são aproveitados. Ao desfrutar cada detalhe que configura a forma desse acontecimento, há marcas que ficam eternizadas significativamente. Não duvides; ficam gravadas a tinta indelével no coração, esse lugar tão privilegiado onde pode caber tudo, mas onde o melhor é o que realmente merece permanecer. Guarda o melhor dentro de ti, não vivas por menos!


Um texto escrito hoje, na viagem de regresso a casa; momentos privilegiados para soltar as amarras da alma e da mente e dar uso e força à paixão pelas palavras.

Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012

A aula de hoje.


«Um verdadeiro professor mostra, ensina como se faz, detém-se na matéria; não se preocupa em cumprir estrita e rigorosamente um programa. Hoje não cumpri toda a minha planificação, mas senti que ensinei, que fui professora. Aqueles miúdos aprenderam nestes últimos noventa minutos. Pode não ter sido uma aula boa, perfeita. Ainda há arestas que precisam de ser limadas. Mas saber que aqueles miúdos saíram da sala a saber e compreender um conjunto de assuntos que lhes ensinei... chega-me, aquece-me a alma! É assim que serei (sou) professora.»

Este é um parágrafo da reflexão que fiz hoje, momentos depois de dar a minha aula. Desta vez a aula contou com a presença da supervisora da faculdade. E, na verdade, podia ter corrido melhor. Desta vez vi-me obrigada a lutar contra o tempo, contra um plano de aula extensíssimo, que não foi totalmente cumprido. Além disso, no meio da pressão do trabalho e da obrigatoriedade dos prazos a cumprir, lá enviei umas planificações com alguns erros... Pequenas misérias, portanto.
Mas não saí desanimada; aliás, o desânimo, como diria alguém, é coisa que a mim não me assiste. Além de ter em mim a força para seguir sempre em frente e afastar as pedras do caminho e o amor por esta profissão que, cada vez mais, vejo como certeza na minha vida, saí da sala com a certeza de que, apesar de tudo, aqueles meninos e aquelas meninas aprenderam. Hoje ensinei-lhe alguns conteúdos gramaticais e culturais, e senti que eles interiorizaram-nos. Saíram da aula a compreendê-los. Mostraram o feedback que eu necessitava de receber. E isso basta-me; isso traz-me a verdadeira felicidade de ensinar e ajudar no desenvolvimento dos alunos. A minha missão como docente fica cumprida quando vejo que os meus alunos aprendem comigo. Afinal, e terminando tal como comecei, um verdadeiro professor ensina; se for preciso dedica mais tempo a uma matéria do que a outra, não se limita a cumprir desenfreadamente um programa de ensino.

Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

Quarta-feira de Cinzas.


Em cada ano, vivo sempre este dia com aquela modéstia e humildade que, por vezes, vai faltando nos restantes dias do ano. Hoje foi Quarta-feira de Cinzas, foi o dia que iniciou um tempo diferente na vida da igreja: a Quaresma.
Sendo considerado um dia de jejum e de abstinência, dia de comer pouco ou até de renunciar às coisas supérfluas, eu diria que este pontapé de arranque da Quaresma nos coloca face a face com a realidade do que somos: simples humanos. Podemos estar muito bem vestidos, pintados, bem parecidos. Mas perante a grandeza e misericórdia do Deus que é amor, cada ser humano tem em si a condição de pecador, que o torna pequeno e simples.
Encarar as cinzas faz-me pensar sempre nesta condição pequena do ser humano. No quanto é tão fácil pecar, mas tão difícil perdoar. Estamos sempre a tempo de ser mais e melhores. A quaresma é sempre um tempo de conversão, de mudança. Ao longo destes próximos quarenta dias somos chamados a renovar o nosso coração para a mudança que vem melhorar a nossa vida. Essa mudança pode acontecer ao longo deste tempo. Basta querermos.
«Arrepende-te e acredita no evangelho.», é o mote certeiro para cada início de quaresma. Que este tempo seja, sobretudo, um tempo de humildade; não da humildade que nos leva a falsas inferiorizações, mas da humildade de quem vive o dia a dia na simplicidade e na comunhão com os outros. E que não falte, também, a confiança; a confiança de quem pega na cruz e se dispõe a segui-Lo. Ao longo de cada passo da nossa vida, há um Deus que percorre os caminhos que percorremos, que vê e dá-se conta até do que está escondido, oculto. Confiemos nele; abramos o melhor que temos cá dentro à novidade que poderá fazer toda a diferença na nossa vida.